Quando caímos do bote…

Reach-out

Quando o tempo que se para é longo, a volta é tão estranha… O que dizer, como conectar novamente.

Eu resolvi escrever pra aqueles que algum dia já experimentaram a depressão e que sofreram em um mundo, onde essa doença é vista sobre uma lente de preconceito cego. Se tenho câncer a aceitação é imediata, mas quando é depressão, soa como se imediatamente julgamentos a respeito são feitos; da sua fé; da sua “sensibilidade”; do seu relacionamento com Deus são formados. Não culpo quem o faz, pois na maioria das vezes nunca estiveram nessa posição e realmente é difícil ter compaixão de algo tão longe…

Eu tentei lutar por muito tempo contra ela. Eu via meus pais lutando com remédios pra depressão e sempre conversando sobre aconselhamento, terapia,… eu mesma era uma que julgava. Eu achava que pelo fato de desde cedo me informar e aprender técnicas de aconselhamento, ser aberta pra oração, e enumeras sessões de cura interior, nunca precisaria enfrenta-la. Quando ela me atingiu eu não estava preparada…lutei, muitos anos. Eu já era missionária quando percebi que a coisa estava fora de controle e isso foi o que mais pesou. Como posso ajudar outros, se eu não sei o caminho pra mim mesma. Você já passou por isso? Tentando ensinar o próximo a nadar, quando você está se afogando…Lutar tanto tempo contra algo e esse te alcança.  Está a sua porta e você não sabe o que fazer ou como pedir ajuda…

Bom… Queria compartilhar a minha caminhada, para comfortar a dor dos que como eu, participam ou participaram dessa dor e para aqueles que quiserem caminhar comigo.

Eu passei por todas as fases; negação, ira, crítica, fuga, dormência e luto. Fui pra Deus em todos os momentos, questionei, gritei e descabelei. Eu só conseguia ver Ele agindo ao meu redor, em silêncio.  Não entendia o que Ele estava fazendo em mim ou na minha vida, nada fazia sentido. Me parecia que Ele queria assistir o que estava acontecendo comigo, sem interferir. Eu não conseguia mais ouvir a Sua voz ou seu sentir seu agir.

No começo da caminhada, me manter ocupada ajudava a não pensar em quão só eu me sentia. Ajudando as pessoas parecia que preenchia o vazio, pelo menos por algum tempo…  Quase não tinha tempo de qualidade com os meus filhos, pois sempre estava ocupada. Em missões ainda é mais fácil, porque você pode dar a desculpa que é pra Deus e ainda recebe elogios, pois quem é que vai te falar para ir mais devagar no trabalho do Senhor…

Ao passar do tempo, eu já não conseguia esconder mais os altos e baixos. A vontade de me isolar. Tentava estar com as pessoas, mas a solidão era muito grande. Queria ficar em casa e me sentindo super culpada por não conseguir fazer nada. As pessoas me perguntavam o que estava fazendo e não conseguia responder. Quando você sabe que tem capacidade e talento, mas não consegue se mover a dor é insuportável!  Você se sente amarrada; amarras invisíveis.

Mais uma vez, fui pra Deus.  Falava com ele que eu precisava de direção, de cura. Eu cheguei a conclusão que precisava aceitar que sofria de depressão. Foi então, que Ele conseguiu me ajudar a começar a caminhar… me disse pra assumir e procurar ajuda.  Procurei um amigo médico e depois de uma consulta, foi constatado que uma das razões da minha depressão era porque eu não produzia serotonina e isso fazia com que ficasse sempre cansada e deprimida. Depois que comecei a tomar o remédio, me senti como se pela primeira vez pudesse caminhar.

Pensei que tinha terminado… foi depois de 1 ano que a depressão voltou. Diferente da primeira vez, eu tive ataques de pânico, meu cérebro estava totalmente nublado e não conseguia conduzir uma conversa. Pensei que o remédio não estivesse mais funcionando. Mais uma vez, fui pra Deus.  Dessa vez eu tinha a convicção de que seria uma jornada e não uma receita fast food.

Depois de muito tempo chorando e agonia. Não saia mais do quarto. Disse pra Deus que eu não ia mais a lugar algum, que se Ele quisesse ele ia ter que me tirar dessa situação! Eu estava cansada de lutar. Foi nessa hora que meu telefone tocou. Uma amiga me chamava pra fazer parte de um grupo de apoio, que ajuda pessoas a enfrentarem seus maus hábitos, dores, fugas, vícios… Com o ensino, aprendi mais como Deus fez o ser humano e como o nosso cérebro é programado pra fugir da dor e correr para o comforto, mesmo esse sendo prejudicial a você. Com outras amigas aprendi que mudar a direção, muitas vezes, é muito mais que uma decisão, é necessário ter humildade de pedir ajuda de fora pra caminhada. Eu achava que só indo pra Deus sozinha era suficiente. E não me entenda mal,  Ele É a fonte.  Penso ser fundamental que na primeira parte da caminhada, ser imprescindível que nos voltemos exclusivamente pra Ele (a sós), pra aprendermos a ouvir sua voz, entender Seu amor e temor, mas a caminhada continua e, como parte nova dela, entender que além de Deus ser meu pai e me relacionar a sós com Ele, a cada dia, Ele nos fez parte também de uma família. Deus nos fez pra nos relacionarmos e foi quando percebi o quanto caminhava sozinha, mesmo ajudando pessoas ou tendo elas ao meu redor eu estava só (como sentir o sabor de uma bala com a embalagem ao redor). Entender como caminhar com Deus é refletido também como nos relacionamos com outros.

O mais difícil foi assumir isso. Que precisava de alguém.  Pedir ajuda nas minhas quedas e deixar que me ajudassem. Eu queria ser independente! Não queria precisar de ninguém, só que precisassem de mim. Queria defender Deus dizendo que Ele era poderoso pra, sozinho, me curar. Até que entendi que, as vezes, Ele se abstêm, porque Ele quer que nos relacionemos. Ele quer que oremos um pelos outros, que sejamos vulneráveis e nos comuniquemos de forma mais profunda e pessoal. A nossa sociedade nos empurra pra estarmos ocupados e sermos auto-suficientes, superficiais, mas ela não dá uma solução pro vazio que isso causa. Estamos nos afastando um dos outros, contando com fotos na internet pra nos trazer companhia, postando textos que estão tão longe da realidade do que estamos passando ou vivendo a vida dos outros em suas fotos, porque a nossa está tão destruída. A internet não é mais o meio, virou o fim. Não sabemos mais conversar. Ficamos um do lado do outro com os telefones na mão, na ilusão que estamos juntos.

Não estou aqui pra pregar contra a tecnologia, pois ela auxilia muito. Até mesmo por morarmos longe da família e de amigos e precisarmos dela pra manter contato.

Estou compartilhando aqui a dificuldade de perceber e de tentar sair do buraco onde quase tudo que está ao redor te faz deslizar mais e mais fundo. Pra conseguir sair é preciso de ESPERANÇA e FÉ pra se arriscar a deixar tudo pra trás. Sair do virtual e caminhar num lugar assustador chamado VULNERABILIDADE.  Expressar à pessoas confiáveis o quando necessitamos delas e poder dizer o quanto estamos feridos. Chega de ilusão! Seja com computador ou sem, precisamos viver no mundo real! Onde Deus é suficiente! Onde Ele direciona! Onde Ele proporciona o conforto de ter pessoas ao lado pra caminhar (isso se você ao menos se arriscar). E se você se machucar, percebe onde precisa ajustar e volta a tentar. Não dá pra desistir de Deus e não dá pra desistir das pessoas. Fugir só nos leva mais longe de quem realmente somos e de quem fomos feitos pra ser.

Pra dar uma ilustração… Deus me deu uma imagem de onde estava. Eu estava fora do bote em uma corredeira perigosa. Descendo rápido, com pedras ao redor e água entrando pela minha boca. O que estava tentando fazer era tentar nadar pra não me afogar. O que não entendia é que, quando se está nessa situação, o óbvio a fazer é o que te pode matar. Nadar não era a solução nesse caso, mas abrir mão do controle de solucionar por conta própria e confiar no processo ao colocar suas mãos no peito, deitar (boia) e deixar a correnteza te levar até o lugar onde as águas estão mais calmas e poder, aí então, nadar e achar um lugar pra ficar de pé. Parece ridículo, porque quando você faz isso as águas não ficam menos ferozes, você ainda bebe água, ou se bate nas pedras, parece até um ato irresponsável.  Como confiar tanto em alguém pra te levar em águas perigosas, sem um bote ao redor?! Mas quando se decide abrir mão do controle e tentar mesmo com o medo, quando deixamos Deus nos guiar sem direção ou entendimento, uma paz sem tamanho toma conta de você.  Paz de saber que mesmo que as águas ao redor estejam querendo te tragar, “tudo vai ficar bem”… Creio eu, que foi o que Pedro experimentou, quando Jesus o carregou.   Jesus podia ter feito ele voltar a tona sozinho, mas escolheu dar a mão pra ele. As águas não se acalmaram, mas Jesus levou ele a salvo para o barco. Ou quando Jesus dormia na tempestade. Não parece fazer sentido né?

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Pois é… se tem algo que posso compartilhar do progresso que tenho feito na minha vida, é o fato de conseguir ver o valor de abrir mão do controle de entender ou de ir pra qualquer lado. Deixar Deus me conduzir e no caminho permitir pessoas ao meu redor de fazer parte desse processo tem dado cor a minha vida.

Se você está nessa, quem é que está ao seu redor? Qual é o seu medo? Qual é a sua corredeira? Onde está Deus em tudo isso?

Não espere querer ouvir a voz de Deus em todos os momentos ou só seguir a Ele se tiver a direção, as vezes Ele ele fica em silêncio, onde nada faz sentido e precisa de direção. Ele só quer que deixe as rédeas da sua vida e, mesmo sem controle da direção, confie Nele e que isso seja suficiente. É suficiente, amar a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo. As respostas além disso são um detalhe e acredite em mim…elas virão.  O amor cura! Tudo pode passar, mas o amor permanece. Mesmo que o nosso corpo ainda pese ou nos afaste do caminho. Trazemos tudo pra cruz e caminhamos crendo que esse tempo aqui é passageiro e que colocamos nossos corpos com Cristo na cruz e caminhamos na sua ressurreição sabendo que, um dia, o sofrimento vai passar. Que cada dia seja vivido como se não tivesse um amanhã…

A maior luta do ser humano não é a de saber a respeito do amor de Jesus e fugir do inferno, mas sim de decidir abrir mão do controle de sua própria vida, aqui e agora,  confiando que ESSE AMOR é suficiente.  Suficiente pra te dar A vida.

Orem! Compartilhem sua dor com aqueles que podem te ajudar! Não fiquem calados em frente a TV, ou comendo chocolate, ou mesmo ocupados no trabalho ou em viagens. Não se enganem, não fujam, e acima de tudo, saibam que não estão só nessa caminhada!

Um comentário sobre “Quando caímos do bote…

  1. Oi, amiga Dri, quanto tempo? Que coisa boa ler tuas palavras. Parece que voltei em 2008 lá na Vila e te senti por perto. Tu sempre foi e percebo que continuas sendo, muito sábia. Como eu aprendo contigo!

    Que saudade!
    Abração.

    Éder Duarte.

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